Sexta-feira , 18 Outubro 2019
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Cultura do remédio: Sou viciada em medicamentos?

Aliado a promoção da saúde, o uso de medicamentos pode fazer mal se for usado de forma indevida.

Eliane Torri Furtado

Está com dor de cabeça? Toma medicamento. Enjoo? Toma medicamento. Sem dormir? Basta tomar um medicamento. E para emagrecer? Tem medicamento também. Para quase todos os males do mundo há uma substancia química para solucionar, e muitos para indicar. “Esse medicamento é tiro e queda. Meu pai tomou e melhorou na hora”. Não é à toa que o número de farmácia em todo o país tem aumentado devido à enorme demanda do uso de medicamentos. Só em Campos Novos temos 15 farmácias, há poucos raios de distância uma da outra. Atualmente a maioria das pessoas se tornou refém dos produtos medicamentosos e passam a tomá-los sem necessidade e por indicação de ‘amigos’. Na busca pelo alívio imediato do problema, a maioria esquece que, em médio e curto prazo, a utilização de substâncias pode trazer sérias consequências a saúde. Algumas pessoas chegam até a fazer uma avaliação do médico pela quantidade de medicamentos que eles prescrevem: “Esse médico não é bom. Ele nem passou nada para eu tomar”, já ouviu alguém dizer isso? É importante que cada um reflita sobre suas atitudes para averiguar se realmente precisa do tratamento medicamentoso ou se já passou a ser um vício.

É inegável a importância dos medicamentos, através de seu uso foi possível aumentar a expectativa de vida. Fundamental para a longevidade, eles atuam como aliados a boa saúde, porém é preciso ser usado de forma consciente e responsável, evitando a compulsão. Algumas situações são bem peculiares e causam preocupação. De acordo com a Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), um organismo da ONU, o vício em medicação supera o consumo de drogas ilícitas. É bom parar para pensar: como eu encaro o remédio? Eu busco que tipo de indicação, de amigos ou dos médicos? Para tentar amenizar esta cultura foi criado no ano de 2011 uma lei que proibia a venda de alguns medicamentos sem receita, fato que diminuiu a venda, no entanto ainda não foi suficiente para solucionar o problema. A farmacêutica Eliane Torri Furtado, que atua na Farmácia do SUS, relatou que a busca de medicamentos na unidade do município é grande e pontuou situações comuns que são observadas e quais os medicamentos são os mais procurados.

Segundo ela, algo que é preocupante é o fato de as pessoas aceitarem indicação de pessoas sem nenhuma qualificação para isso, algumas chegam até a seguir sugestões da internet. Entre as medicações mais procuradas estão os analgésicos e os ansiolíticos. Ambos são viciantes e devem ser tomados apenas por indicação médica, pois podem causar uma reação em cadeia. Às vezes o que faz bem para uns não faz bem para outro. “Em curto prazo um dos efeitos é que o paciente poderá apresentar constipação, e a pessoa nem se dá conta que esse sintoma possa ter sido causado pelo remédio”, diz Eliane. A classe de medicamentos analgésicos, apresenta alguns remédios que são de grande potência promovendo alívio rápido da dor. Pacientes que já utilizaram esse tipo de medicação quando apresentam qualquer tipo de dor querem utiliza-lo constantemente, mas a farmacêutica alerta sobre essa situação. “Esses são medicamentos que não deveriam ser usados no dia a dia. Eles são analgésicos mais fortes, prescritos para casos específicos de dor extrema. Pelo fato dele aliviar a dor de forma precisa, as pessoas querem tomar o remédio por qualquer motivo. Essa classe medicamentosa tem o potencial de viciar, elas agem no sistema nervoso, e se a pessoa não utiliza de forma correta, ela pode desenvolver o vício”, afirma.

Assim como as dores, o problema de falta de sono tem tirado a paz de muita gente e alguns acreditam que a solução é sempre através do uso de substâncias. Com a prescrição médica não há problema nenhum, mas, mais uma vez, as pessoas tentam resolver o problema de forma irresponsável e tomam medicação autonomamente. Ao perceber que o uso foi eficaz no caso de algum colega, elas desejam ter a resolução imediata do problema e para isso vale até ‘experimentar’ alguns comprimidos. Eliane diz que esse tipo de medicamento deve ser usado com cuidado e, de preferência, que seja apenas por um tempo específico, e por recomendação, pois eles podem prejudicar a memória do paciente se usado por muito tempo. No município este é um medicamento muito consumido.

Para tentar amenizar esta relação de dependência do uso de remédios, Eliane diz que é preciso que as pessoas aumentem em conhecimento e conscientização sobre o tema e entendam os riscos. Para tanto a comunicação com o médico é essencial, assim como o respeito pelo que ele diz e recomenda ao paciente. “É importante que as medicações sejam tomadas apenas se houver necessidade e prescrição médica, e devem ser tomadas apenas no período que foi determinado. As pessoas são imediatistas e querem resolver o problema logo, e não param para pensar no risco da dependência e nas e mudanças fisiológicas no organismo”, declarou Eliane.

Outro problema preocupante

Assim como existem aqueles viciados em remédios, existem aqueles que não respeitam o tratamento medicamentoso prescrito pelos médicos. Este assunto é de extrema preocupação para a classe dos médicos e farmacêuticos em virtude dos riscos envolvidos. No caso dos antibióticos esta situação se torna ainda mais preocupante. Pacientes que recebem prescrição para o uso do medicamento suspendem o uso assim que notam melhora no quadro. Apesar do paciente ter se sentido melhor, o antibiótico ainda não agiu completamente no organismo, e suspender irá tornar a bactéria ainda mais perigosa e resistente e sua reação no futuro pode ser ainda pior. A farmacêutica afirma que é comum receber na farmácia o descarte de antibióticos. “Quando vemos o descarte desse tipo de medicamento vemos o quanto a população toma errado, porque alguns remédios que são prescritos, eles devem ser tomados por completo. As pessoas precisam se dar conta da gravidade disso, e o que pode acontecer. A classe médica e farmacêutica prevê que em breve possa ocorrer um surto de superbactérias, devido a má utilização de antibióticos. Isso seria fácil de resolver se as pessoas seguissem a orientação do médico e seguir o tratamento corretamente.

*Editorial publicado no jornal “O Celeiro”, Edição 1584 de 27 de junho de 2019.

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