Sexta-feira , 18 Outubro 2019
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Incerteza é sinônimo de fracasso?

Camila Soares Borges

Estes dias, entre um período de aula e outro estava rolando o feed e vi um post questionando o passado e correlacionando-o ao presente. Mais ou menos, a frase dizia o seguinte: “a pessoa de dez anos atrás sentira-se orgulhosa daquela que você é hoje? ”

Esse simples conjunto de palavras perdidas na enxurrada de informações que recebemos diariamente por meio das redes sociais começou a tilintar em minha mente e levar a infinitas indagações. Até conversei com minha mãe sobre minhas conquistas, derrotas e desafios, mas sobretudo, ao analisar com calma, pude perceber o quanto mudamos ao longo do tempo.

Nossos gostos, paixões, costumes, padrões, crenças e sonhos são extremamente mutáveis. Somos reféns do período histórico em que vivemos e das pessoas com quem convivemos, porém, o que verdadeiramente delimita nossos horizontes é a quantidade de conhecimento que agregamos e com que olhos vemos o mundo que nos cerca. Aprendemos a todo instante, portanto, principalmente na adolescência, mudamos nossos objetivos a quase todo instante.

Se parar e analisar, poucas pessoas da minha faixa etária já sabem com absoluta confiança qual será sua profissão, com quem irão casar-se ou onde irão construir suas casas. É desesperador, porém essa transmutação de ideias é essencial ao nosso amadurecimento. Afinal, como diria Oscar Wilde, na incerteza está o encanto. Se já nascêssemos com um caminho para o sucesso pré-definido como em uma receita de bolo e simplesmente seguíssemos os passos para “se dar bem na vida”, nossa existência não teria sentido. A incerteza deve parar de ser vista como algo de conotação negativa, mas sim, como uma oportunidade para o reencaminho, aprendizado, análise e resiliência.

E nesse vai e vem de ideais e ideias, conclui que a Camila de dez anos atrás jamais imaginaria que a Camila de hoje chegaria onde chegou e faria o que fez. Afinal, nossas vontades são delimitadas pela bagagem intelectual e moral que agregamos ao longo da vida e estamos em constante mudança o tempo todo.

Como diria Heráclito, não é possível banhar-se duas vezes no mesmo rio, porque nós seremos diferentes e o rio também. A conclusão que pude chegar com aquele post aleatoriamente lido no meu Insta é que, sim, devemos estabelecer metas para daqui dez anos e regressar para analisar o quanto evoluímos no mesmo período de tempo. Porém, prender-se a fatos futuros, tomando metas como verdades absolutas imutáveis de modo que, por exemplo: “só serei feliz depois que terminar o ensino médio” ou “serei livre para sempre depois que sair da casa de meus pais”, não passa de uma atitude ilusória e falível que temos. Pois aquilo que consideramos importante hoje, talvez amanhã, já não faça tanto sentido assim.

Afinal, a felicidade não tem endereço certo ou segue uma estrutura sequencial como em um algoritmo. Nossa vida não é um videogame perfeito, onde se concluem fases para passar de nível. Há contratempos ao longo do caminho que fazem com que aprendamos a realmente sermos seres humanos, mudando a forma como tratamos os outros e também a nós.

Entre o sonho e a conquista do objetivo está a nossa vida. Assim como em uma corrida de cem metros, não é o ponto final ou inicial que somente importam, mas sim, quem aproveitou o caminho, soube superar as dificuldades, reinventou-se e deu o melhor de si ao longo do trajeto é que realmente pôde alcançar a satisfação do dever cumprido, tendo consciência de que talvez, não alcançou todos os objetivos socialmente corretos e lucrativos, mas tornou-se o melhor para si mesmo, aproveitando, aprendendo e modificando-se a partir daquilo que a vida lhe ofereceu. Fazendo das incertezas, uma oportunidade para reinterpretar o mundo e construir uma nova versão de si mesmo.

Por: Camila Soares Borges, Estudante

*Coluna “Espaço Jovem” publicada no jornal “O Celeiro”, Edição 1587 de 18 de Julho de 2019.

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