Terça-feira , 17 Setembro 2019
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Setembro Amarelo: Falar ou não falar sobre suicídio?

Psicóloga diz que assunto deve ser debatido para quebrar tabus

“Sempre tive o que eu precisava. Tinha todos os motivos para ser uma pessoa feliz. Mas eu não era. Sentia um vazio enorme, uma angustia e um desejo imenso de sumir do mundo. Queria dormir e não mais acordar. Por fora eu estava sorrindo, mas por dentro eu estava sangrando. Eu não tinha mais vontade de Viver. Eu não conseguia me animar nem mesmo estando rodeada de pessoas. Eu estava cansada e só queria acabar com tudo de uma vez”. P.A.N.

O suicídio tem acabado com a vida de milhares de pessoas no mundo todo. Esta também é uma realidade local. Não é um ato de covardia ou de fraqueza, é um ato de quem lutou por muito tempo, mas se perdeu no meio a desesperança. O suicídio não foi uma vingança contra a vida. Quem decide tirar a própria vida não quer deixar de viver, apenas quer acabar com a dor. O breve relato descrito acima foi dito por alguém que talvez você conheça. Algum amigo, parente ou conhecido que você talvez nem imagine que sente toda essa angústia. Talvez seja, até mesmo, alguém que você encare como uma pessoa de bem com a vida e extrovertida.

O mês de setembro é dedicado a prevenção mundial do suicídio, chamado também de setembro Amarelo. O assunto ainda é um tabu devido ao preconceito e a falta de informação acerca do tema. A psicóloga Carla Fabiana Pereira afirma que este é um assunto que deve ser debatido para que mais pessoas conheçam, entendam e deem a ajuda correta para quem apresenta sinais que podem levar ao suicídio, um problema cada vez mais comum na atualidade. “É preciso falar e dar espaço ao assunto. Este fato existe e deve ser falado. Está tomando uma proporção grande. A Organização Mundial de Saúde vê isso como um problema grave, e é preciso falar sim. Falar sobre o suicídio é uma forma de incentivar as pessoas a procurar ajuda”, defende a profissional. Mas o que é preciso saber sobre isso? O que leva alguns a cometer suicídio? Que sinais podem ser observados? De que forma ajudar pessoas que pensam em suicídio? Carla responde as principais dúvidas.

O suicídio acontece entre pessoas de todas as idades, de adolescentes a idosos, mas o que leva alguns a terem o desejo de tirar a própria vida? Momentos de tristeza são naturais na vida de todo o ser humano. Porém, em alguns casos a tristeza, a aflição e angústia se tornam uma constante tornando a pessoa emocionalmente doente. A luta contra esses sentimentos pode levar anos e geralmente decorre por vários motivos, nunca por um único fato, conforme explica a psicóloga Carla explica. “O suicídio resulta da junção de vários fatores que podem ser sociais, pessoais e ambientais. Ninguém comete o suicídio por um único motivo e ninguém comete sem antes ter tido a ideação suicida, após isso há a tentativa de suicídio para posteriormente ocorrer o ato consumado do suicídio. A pessoa que comete o suicídio geralmente apresenta uma vulnerabilidade e outros fatores que não são percebidos e já faziam parte da história de vida dessa pessoa. O suicida não é covarde, na verdade ele foi alguém forte durante muito tempo e tentou lutar contra aquele sentimento. Por estar vulnerável e doente a pessoa só quer pôr fim a dor”, explica.

Carla deixa claro que quem pensa em suicídio sempre dá sinais de que algo está errado, mas ressalta que nem sempre os sinais são tão evidentes, o que requer uma atenção maior para identificar a situação e prestar ajuda o mais breve possível. Que sinais podem ser observados? A psicóloga diz que é comum haver o isolamento, fato que pode começar aos poucos, a falta de interesse em atividades que antes eram prazerosas, e uso de frases que expressam seu desejo de morrer, mas que são ignoradas. Alguns demostram esses sinais de forma bem clara, mas há aqueles que mascaram os sentimentos e tentam levar uma vida normal, mas mesmo assim a psicóloga descreve alguns sinais que podem ser observados. “Às vezes pessoas que são exageradamente muito extrovertidas usam isso como máscara para atender a expectativa que outros tinham em relação a ela. As pessoas costumam querer se olhar como super-heróis, mas nenhum de nós é, ninguém é forte o tempo todo, somos uma reação aquilo que estamos sentindo. A pessoa pode ter uma vida normal, ter amigos e pareça estar bem, mas aos poucos ele vai se distanciando do que costumava fazer, diminuem as idas as festas, começam a recusar convites de amigos, se vão as festas voltam mais cedo para casa. É preciso prestar muita atenção aos pequenos detalhes”, alerta.

Sendo assim, se notar que alguém está passando por uma situação provadora, de que forma dar ajuda prática? Carla aponta três atitudes que podem resgatar quem está idealizando o suicídio. “A escuta, a aproximação e o olhar devem ser essenciais. Saber ouvir uma pessoa adoecida e compreende-la é importante. O ser humano não deveria abafar sentimentos e memórias. A fala é a maior parte da cura de uma patologia. A pessoa adoece por tentar engolir palavras e sentimentos e abafar dentro de si mesma aquilo que não precisa ser abafado. É importante e necessário dar oportunidade para a pessoa se expressar. Alguns tentam falar e não são escutados como deveriam, por isso acabam se culpando e escondem o sofrimento que carregam”, declara Carla.

Assim como é preciso falar sobre esse assunto, aqueles que enfrentam sentimentos de dor, devem ainda mais ser incentivados a falar sobre suas angustias. A pessoa citada na abertura da nossa matéria, afirmou que idealizou várias o suicídio, mas que por receber a ajuda apropriada, hoje tem uma vida melhor. “Ser ouvida e compreendida foi essencial para que eu me sentisse a vontade para desabafar. Sentia vergonha de estar naquela situação e tinha medo de ser julgada. Mas para a minha surpresa não fui. Foi preciso paciência para lidar comigo, mas não desistiram de mim. Desabafar sobre o que eu sentia foi libertador”, conclui.

*Reportagem publicada no jornal “O Celeiro”, edição 1594 de 05 de setembro de 2019.

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